Sem título n°3

As novas cicatrizes apareceram sem que eu me desse conta de onde elas vieram. Eu me entrego ao ego e falho miseravelmente na rotineira tentativa de adaptação. Caixas empilhadas, atenção requisitada, falta de ar. Tanto ar e não me é suficiente, como se eu não coubesse nos espaços. Eu perdi o meu espaço. Perdi o meu reflexo quando me olho no espelho.

 

Eu estou lá fora, o que eu estou fazendo ali? Repetindo os mesmos erros dos meus pais, comendo uma maçã tão doce que eu não quero que acabe. Após me lambuzar e me sujar em algumas mordidas, não tenho mais nada. Um prazer instantâneo e as mãos sujas. Minha companheira me olha, me envolve, confusa, “tem alguma coisa errada”, mas se pra ela estou melhor, por que mudar? Nunca estive melhor.

 

A compulsão por limpeza, os móveis derretidos, os animais mortos no chão. Todo dia um passo à frente enquanto ouço a voz dizendo “volta”. Meus olhos na nuca me revelam, quando o som chega aos ouvidos, eles lacrimejam. Todos os meus brinquedos quebrados, as lentes dos meus olhos desfocados, o tédio do barulho dos outros.

 

Leio e releio o que foi escrito. Eu quero gritar e destruir tudo, mas o silêncio só permite abandonar o que comecei no meio, estruturas semi-prontas. Ferros retorcidos, galhos secos, o fogo que dançava comigo. Eu não queria que fosse assim, não queria. Nem esse texto era pra ser assim, mas só estou sendo honesto. Porque eu preciso.  

Anúncios

(sem título)

CREEP yuri kiddo-26

Manchas de cândida
Nas cores de sangue
O cheiro cândido
Da morte
Embrulha o estômago
Cicatriza o âmago
Marca no nome

O chão seguro
Abraça os derrotados
E com um ninar
Os põe para descansar
Depois desaparece
Sem deixar nada
No lugar

Pupilas dilatadas
Pele pálida
Bem-vindos ao paraíso
Espiral de ecos
Riso sobre riso
O reflexo em espelhos partidos
É escárnio particular

(Falsa e indigesta
A vida é festa
Pode chorar)

Etiquetado , , ,

Olhos Fechados

Será preciso
Os oceanos se partirem
Tremer e rachar o chão
Os céus caírem
Para transformar animais nocivos
Em bichos de estimação

Será preciso
Que o sol faça chover fogo
Para iluminar nossos sonhos
De abraços longos

Ou que o inferno congele
Para acalmar os demônios
Escondidos sob nossas peles

Será preciso
Entregar-se sem se render
Enxergar-se para renascer
Encarar-se em nudez
Caminhos não são impossíveis
Um passo de cada vez

Precisos
Teus olhos de jade
Estão por toda parte
Tristes e alegres, vivos
Quando se fecham
Para dentro se abrem

Etiquetado , ,

Hang on

Hang on, my love
I’ll be with you soon
Through the skies and above
Over the sun and the moon
We’ll meet again

The blood in my veins
Water the earth
I dream we hold hands
Mine’s so full of dirt

I see your silhouette
Getting closer and closer
But you are up high
While I keep going lower

Hang on, my love
I’ll do what I can
To get through this life
And smile again

Etiquetado

Entender que em sua vida houve sangue

No mangue me afogo
garanto o sufoco
perante meus poros
e em instantes
te exploro
aos poucos
decoro
seu paladar por alarmes

Para nunca esquecer:
se brisar,
não escrever

Etiquetado ,

desacostumado

As letras se dissolvem conforme vou descendo a barra de rolagem, como se fosse chegar em algum lugar. O fim nunca se aproxima, a barra nunca acaba. Nada me interessa e me tira o tédio. Meu texto não se encontra mais comigo da forma como eu gostaria… e a mania de querer provar que sempre estamos onde deveríamos estar permanece ao peso de tijolos nos ombros. As palavras não se encontram, como se não se conhecessem ou se gostassem. Soltas, num purgatório cósmico dentro de mim, uma condição de existência a espera de um final.

As ideias passam pelas meus pensamentos ansiosos e prematuros como rostos passando dentro de vagões no metrô, e eu, antes da linha amarela entre o trem e a plataforma. Tentando capturar qualquer cena, ideia ou sacada que possa me inspirar. Em vão. Vão é o lugar dos que não veem luz no fim do túnel das estações. Linha azul, vermelha, verão, inverno. Muitos acabam ali sob o convite rotineiro da pressão exigente de São Paulo. Dias quentes, noites frias.

Não consigo escrever. É novo, mas já existe; não é vertigem, mas enjoa; não machuca, mas dói; tem muita gente, eu sozinho já foi. A porta abre e não tem mais espaço pra entrar, são rostos conhecidos que me puxam pra dentro e me empurram pra fora. Não compreendo o que dizem, estamos em planos diferentes e jamais pediria socorro, porque meu orgulho, porque minha vergonha, porque meu ego. Os meus olhos encaram outros que não enxergam. Eu não vejo o que eles têm a dizer. A falta de fé só diz que morremos devagar.

Frases natimortas, levianas; recortes de uma cabeça confusa, que só se confunde mais, que procura cada vez mais confusão. Muitas perguntas sem respostas e muitas portas abertas sem conclusão. Eu caí no vão. Uma amiga trabalha no Metrô e diz que é recorrente as pessoas buscarem a saída nos trilhos, e lá vai ela recolher o tal “objeto da linha, desculpem o transtorno”, quando anunciam nos auto-falantes. “No começo é bem difícil, tem nêgo que passa mal. Mas a gente acostuma.”

A gente se acostuma mesmo.
Da vida a gente só leva a vida que a gente leva.

Etiquetado , , , , ,