Hang on

Hang on, my love
I’ll be with you soon
Through the skies and above
Over the sun and the moon
We’ll meet again

The blood in my veins
Water the earth
I dream we hold hands
Mine’s so full of dirt

I see your silhouette
Getting closer and closer
But you are up high
While I keep going lower

Hang on, my love
I’ll do what I can
To get through this life
And smile again

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Entender que em sua vida houve sangue

No mangue me afogo
garanto o sufoco
perante meus poros
e em instantes
te exploro
aos poucos
decoro
seu paladar por alarmes

Para nunca esquecer:
se brisar,
não escrever

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desacostumado

As letras se dissolvem conforme vou descendo a barra de rolagem, como se fosse chegar em algum lugar. O fim nunca se aproxima, a barra nunca acaba. Nada me interessa e me tira o tédio. Meu texto não se encontra mais comigo da forma como eu gostaria… e a mania de querer provar que sempre estamos onde deveríamos estar permanece ao peso de tijolos nos ombros. As palavras não se encontram, como se não se conhecessem ou se gostassem. Soltas, num purgatório cósmico dentro de mim, uma condição de existência a espera de um final.

As ideias passam pelas meus pensamentos ansiosos e prematuros como rostos passando dentro de vagões no metrô, e eu, antes da linha amarela entre o trem e a plataforma. Tentando capturar qualquer cena, ideia ou sacada que possa me inspirar. Em vão. Vão é o lugar dos que não veem luz no fim do túnel das estações. Linha azul, vermelha, verão, inverno. Muitos acabam ali sob o convite rotineiro da pressão exigente de São Paulo. Dias quentes, noites frias.

Não consigo escrever. É novo, mas já existe; não é vertigem, mas enjoa; não machuca, mas dói; tem muita gente, eu sozinho já foi. A porta abre e não tem mais espaço pra entrar, são rostos conhecidos que me puxam pra dentro e me empurram pra fora. Não compreendo o que dizem, estamos em planos diferentes e jamais pediria socorro, porque meu orgulho, porque minha vergonha, porque meu ego. Os meus olhos encaram outros que não enxergam. Eu não vejo o que eles têm a dizer. A falta de fé só diz que morremos devagar.

Frases natimortas, levianas; recortes de uma cabeça confusa, que só se confunde mais, que procura cada vez mais confusão. Muitas perguntas sem respostas e muitas portas abertas sem conclusão. Eu caí no vão. Uma amiga trabalha no Metrô e diz que é recorrente as pessoas buscarem a saída nos trilhos, e lá vai ela recolher o tal “objeto da linha, desculpem o transtorno”, quando anunciam nos auto-falantes. “No começo é bem difícil, tem nêgo que passa mal. Mas a gente acostuma.”

A gente se acostuma mesmo.
Da vida a gente só leva a vida que a gente leva.

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Obtuso

@ Yuri Kiddo / Instagram

@ Yuri Kiddo / Instagram

minha fonte está seca
embora eu me afogue no fundo
antes que a cabeça se perca
afundo meu corpo no mundo

esse amargo profundo
profano, perverso
versos insanos
nos mostram o inverso
de passos conexos
guerra de cores,
gêneros e classes
querem encontrar ardores
mas antes que os olhos embacem
confundem as dores
nem de graça é o sexo

qual então é o plano?
quanto custam seus valores?
veja se tem nexo
nos braços de amores
em olhares fixos
sorrisos, contratos, retóricas
nada parece impossível
a vida é tão fácil
óbvio e solúvel
está em nossa história
há resposta pra tudo
e nada é confuso
eu que sou obtuso
em minhas próprias memórias

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silêncio

Meu silêncio é pra fora
Tenho escrito por dentro
Sorrio pra mim

Há urgência no agora
Não existe fuga naquilo
Que não tem fim

(sobre minha ausência aqui)

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O menino é despedida, parte 3

<< parte 2

(não fui príncipe do gueto – mal sei quem sou -, mas, naquele dia, desci e subi a ladeira. Dos mil nomes possíveis à casa de minhas memórias, o que hoje levanto é “Castelo de Madeira”)

créditos da imagem: beautiful us, por aitch

créditos da imagem: beautiful us, por aitch

Tinha doze anos quando fui xingado de “filho da puta!” pela primeira vez: pisei no pisca-pisca estendido na calçada da casa onde morava a Estrangeira. Voltávamos, Saulo e eu, do “centro”, a parte mais movimentada pelo comércio de Itaquera. Andando pela rua, o peito nu e a camiseta amarrada na cabeça, Saulo olhou para mim e disse “corre!”, um conselho importante se você pesar as pedras que a Estrangeira lançou em nós até virarmos a esquina. “Ela é louca”, riu Saulo, quando paramos para respirar, e “você tem que olhar mais para o chão, mano”. Foi a primeira vez que me chamaram de mano.

Meus tios me deixaram jogar videogame na casa do Saulo ainda naquela manhã. A mãe dele, mulher de voz alta e adereços africanos na cabeça, prometera uma macarronada de almoço. Lembro de não curtir tanto a massa, devorada com sorriso no rosto, porém – estar na casa de Saulo jogando Super Mario me trazia um status de garoto popular que nenhum destempero poderia destruir.

“Dinossaurinho, dinossaurinho. Isso. Agora segura o casco da tartaruga, vai até ali e mata todos”, ensinou ele, ambos de pernas cruzadas no chão da sala. O garoto que eu era, de dedos pequenos e emoção ao segurar o controle de um SNES – só tinha um Master System, geração anterior, e Saulo ganhara o videogame do pai distante para compensar justamente… a distância – o garoto que eu era não imaginava as coisas que o meu eu adulto agora imagina. Sobre como paciência e boa didática são qualidades de um grande amigo, mas também de bons traficantes. Eu tinha uma nota de dez reais no bolso e, se fosse um pouco mais velho, estaria comprando maconha dele?

Gastamos aquela fortuna alugando duas fitas no centro de Itaquera.

O caminho até lá – ladeira acima, passarela de metal sobre a trilha do trem e umas três avenidas atravessadas, coisa de meia hora e cabelos de mamãe arrancados quando descobrisse – foi marcado por pequenas particularidades: “as casas mais fodas do bairro e os boyzinhos mais babacas, também”, um canetão no bolso dele para pichar “S/R ITAQUERA 97” na passarela, algum adulto gritando, Saulo correndo, eu me esforçando para acompanhá-lo, criança de prédio que não sabia correr ou respirar, o chinelo dele quebrando, o prego do chão para repara-lo,

(quando arrumei o chinelo de Menino pela primeira vez – jogávamos bola e, num chute mal calculado, a tira da frente de sua havaianas soltou – quando arrumei o chinelo dele pela primeira vez, com um prego do chão, percebi o quanto Saulo era herói de si mesmo. Eu, com 26, sofri para cravar o prego que prenderia o chinelo novamente e Saulo, meu deus, Saulo tinha catorze, um videogame vazio, um chinelo quebrado, o pai negligente e um mundo de importunidades e um futuro preparado para engoli-lo)

as fitas do DK2 e Mario Kart, “eu devolvo depois, maior corre”, o retorno, os sinais quebrados da rua, os montes de gente na passarela, “é hora do almoço”, o sol forte, a descida da ladeira, a camiseta na cabeça dele, “você só anda na rua, Saulo, a calçada é aqui, ó”, crec!, crec!, crec!, “filho da puta!”.

Mais tarde, enquanto caía no colchão ao lado da cama de minha prima, o menino que eu era assimilava o Céu e o Inferno e qual minha posição entre eles – numa escala que vai de “filho da puta” a “mano”.

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